Existe uma frase popular que diz muito sobre a parentalidade: “Quem dá doce ao meu filho, adoça a minha boca”. Para quem exerce a função de pai ou mãe, essa não é apenas uma metáfora, mas uma realidade sentida na pele. A alegria do filho é o êxtase do progenitor; a dor do filho é, invariavelmente, uma ferida aberta no peito de quem o criou.
Mas você já parou para pensar por que esse instinto de proteção é tão avassalador? Por que o bem-estar de um filho muitas vezes se torna mais prioritário do que a nossa própria felicidade?
O instinto de proteção na psicologia
Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, o instinto de proteção tem raízes profundas na sobrevivência. O cérebro humano é biologicamente programado para responder ao choro, ao riso e às necessidades da prole. A liberação de ocitocina — o famoso “hormônio do amor” — cria um vínculo de apego tão forte que o sistema nervoso dos pais passa a monitorar o filho como se ele fosse parte do seu próprio organismo.
Essa vigilância constante garante que a criança se desenvolva em um ambiente seguro. É esse mecanismo que nos faz “perder o sono” e manter a atenção redobrada, garantindo que a vida siga o seu curso com o menor risco possível.
A Psicanálise: O filho como “Sua Majestade”
A psicanálise nos convida a mergulhar em camadas ainda mais profundas. Freud, em seus estudos sobre o narcisismo, descreveu um fenômeno fascinante chamado “Sua Majestade, o Bebê”. Ele observou que os pais tendem a projetar nos filhos todas as perfeições e sonhos que não conseguiram realizar.
Nesse sentido, proteger o filho é também proteger uma versão “idealizada” de nós mesmos. Quando alguém “adoça a boca” de um filho, está, simbolicamente, validando o narcisismo dos pais. O filho torna-se uma extensão do ego parental. Por isso, o cuidado excessivo muitas vezes esconde o desejo inconsciente de poupar o filho (e a si mesmo) de qualquer frustração que a vida possa apresentar.
O desafio de equilibrar o cuidado e a autonomia
Embora o instinto de proteção seja vital para o crescimento, a clínica nos mostra que existe um desafio delicado: o momento de permitir que o filho trilhe o seu próprio caminho. Quando a proteção se torna uma “redoma”, ela pode, sem querer, impedir que a criança desenvolva suas próprias ferramentas de defesa.
No meu espaço de escuta, recebo muitos pais que sofrem com a angústia desse desprendimento. Afinal, como “desadoçar” a própria boca para permitir que o filho experimente os sabores — amargos e doces — do mundo exterior?
A análise como caminho para uma parentalidade leve
Entender as raízes desse amor incondicional ajuda a transformar a culpa em compreensão. O papel da análise não é julgar esse instinto, mas oferecer um lugar para que os pais possam elaborar suas próprias faltas e medos, sem depositá-los inteiramente sobre os ombros dos filhos.
Cuidar de quem cuidamos é, acima de tudo, cuidar de nós mesmos.
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