A Transformação Psíquica ao se Tornar Pai e Mãe
O Terremoto da Identidade
Muitas vezes, a literatura popular foca no enxoval ou no desenvolvimento biológico do bebê. Mas, sob o olhar da psicanálise, o nascimento de um filho marca, antes de tudo, o nascimento de uma nova estrutura psíquica nos pais. Deixamos de ser apenas “filhos” para ocupar o lugar de “origem”. Essa transição não é suave; é uma ruptura que nos convoca a reorganizar quem somos.
1. O Reencontro com a Própria Infância
Ao segurarmos um filho nos braços, não seguramos apenas um novo ser, mas também a nossa própria história infantil. Sigmund Freud e, posteriormente, autores como Donald Winnicott, nos mostram que a parentalidade reativa memórias que estavam “adormecidas”.
As dores, as faltas e os desejos que experimentamos com nossos próprios pais vêm à tona. É por isso que muitos pais sentem angústias “inexplicáveis”: eles estão, na verdade, projetando no bebê as suas próprias crianças internas que ainda buscam por colo ou compreensão.
2. A Função Parental e o “Lugar de Saber”
Ser pai ou mãe, na psicanálise, é exercer uma função. Não se trata de perfeição, mas de ser o que Winnicott chamava de “suficientemente bom”.
O Acolhimento: Ser o continente para as angústias do filho.
A Lei: Introduzir a criança na cultura e nos limites.
Nesse processo, somos transformados porque precisamos abrir mão do nosso narcisismo. O centro do mundo se desloca, e essa descentralização do “Eu” é um dos maiores exercícios de maturidade psíquica que um ser humano pode vivenciar.
3. O Luto pelo “Filho Ideal” e pelo “Eu Ideal”
A transformação definitiva também passa pelo luto. Precisamos nos despedir da ideia do filho perfeito que imaginamos durante a gestação para aceitar o filho real, com sua própria personalidade e desejos. Da mesma forma, precisamos aceitar que não seremos pais impecáveis. É no reconhecimento das nossas falhas que humanizamos a relação e permitimos que o filho também cresça.
4. A Análise como Suporte na Jornada
A parentalidade é um convite involuntário à análise. Quando as sombras do passado começam a interferir no cuidado com os filhos, a psicoterapia e a psicanálise surgem como ferramentas essenciais. Analisar-se é um ato de amor não só consigo mesmo, mas com as próximas gerações, interrompendo ciclos de repetições traumáticas.
Conclusão: Florescer nas Raízes
A árvore que ilustra minha marca não é por acaso. Ser pai ou mãe é como aprofundar raízes em solo antigo (nossa história) para que novos galhos possam crescer em direção ao sol (o futuro). É uma transformação que nos torna, definitivamente, mais humanos, mais vulneráveis e, por isso, mais fortes.

