O Carnaval, o desejo, a folia e a psicologia

 

O Carnaval é, talvez, o momento do ano em que a “civilização” faz uma pausa para negociar com seus instintos. Para a psicanálise, esse período vai muito além da festa popular; trata-se de um fenômeno psíquico coletivo. Se Sigmund Freud estivesse hoje em uma arquibancada na Sapucaí ou em meio a um bloco de rua, ele provavelmente veria ali a ilustração perfeita de alguns de seus conceitos mais fundamentais.

1. O Mal-Estar na Civilização… e a Folia como Alívio

Em sua obra O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud argumenta que vivemos sob uma constante tensão. Para vivermos em sociedade, precisamos reprimir nossos impulsos primordiais (o Id) em favor das regras e da moral (o Superego). Essa repressão gera um descontentamento crônico.

O Carnaval surge como uma “válvula de escape”. É o momento em que a cultura permite, temporariamente, uma suspensão das normas rígidas. Freud diria que o Carnaval é uma tentativa necessária de aliviar o peso da repressão, permitindo que o sujeito lide com sua frustração civilizatória de forma lúdica.

2. A Máscara que Revela: O Id no Comando

Diz o ditado que “no Carnaval, ninguém é de ninguém”. Psicanaliticamente, poderíamos dizer que “no Carnaval, o Id assume o microfone”.

  • A Fantasia: Para Freud, o uso de fantasias e máscaras funciona como um mecanismo de defesa e, ao mesmo tempo, de revelação. Ao “fingir” ser outra pessoa (um pirata, um animal, um rei), o indivíduo muitas vezes está dando vazão a desejos reprimidos que sua identidade cotidiana não permite expressar.

  • A Desinibição: O consumo de álcool e a dança frenética ajudam a rebaixar as barreiras do Superego, permitindo que conteúdos do inconsciente venham à tona.

3. A Psicologia das Massas

Freud também se interessava por como nos comportamos em grupo (Psicologia das Massas e Análise do Eu). No bloco ou na multidão, ocorre um fenômeno de identificação coletiva. O indivíduo abre mão de parte de sua singularidade para se fundir ao grupo.

Essa “alma coletiva” proporciona uma sensação de onipotência e pertencimento que é profundamente revigorante para o ego, que passa o resto do ano sentindo-se pequeno e limitado pelas obrigações da realidade.


Conclusão: Um Recreio para o Psiquismo

Para Freud, o Carnaval não seria uma “loucura”, mas um recreio do psiquismo. É o período em que o Princípio do Prazer ganha uma batalha temporária contra o Princípio da Realidade.

Entender o Carnaval sob a ótica psicanalítica nos ajuda a perceber que a festa não é um esquecimento de quem somos, mas sim um momento em que nos permitimos ser tudo aquilo que o restante do ano nos proíbe de manifestar.

“A civilização começou quando o primeiro homem lançou um insulto em vez de uma pedra.” — E talvez o Carnaval seja o momento em que transformamos a pedra em confete para suportar o peso da civilização.

Alexa@891584brAuthor posts

Avatar for alexa@891584br

Alexandra Teles Psicologa (11) 98909-1010 Terapia Cognitivo Comportamental para adultos e casais. Particular Agende sua sessão. alexandra, teles, psicóloga, psicologia clínica, terapia cognitivo-comportamental, saúde mental, bem-estar emocional, psicoterapia, psiquiatra especialista, transtornos psicológicos, depressão, ansiedade, terapia online, psicóloga infantil, psicoterapia breve, abordagem psicanalítica, neurociência, inteligência emocional, transtorno de ansiedade, desenvolvimento pessoal, mindfulness, psicologia positiva, comportamento humano, autoconhecimento, tratamento psiquiátrico, consulta psicológica,

Comments are disabled